domingo, 5 de maio de 2013

Olhos Invisíveis

     Eu vi a morte, mas não a reconheci. Ela não usava aquela capa preta usual, e nada de foice. Parecia uma velha amiga, dessas que marcam a sua vida. Portava aquele sorriso pesaroso, como alguém que traz uma má notícia, mas não pode deixar de dá-la.
     Gentilmente, ela colocou as mãos em meu ombro, quase como se fosse conforto suficiente. Seus olhos estavam próximos, tinham uma clareza indescritível. Talvez eu me apaixonasse perdidamente, não fosse a notícia que portavam. Eu sabia. Sempre soube. Aqueles olhos me acompanhavam desde sempre. Estavam sempre lá. Finalmente, eram visíveis.
     Naquele momento, me passaram mil mínimas esperanças pela mente. E se eu fugisse? Se corresse desesperadamente em qualquer direção? E se fosse só um sonho? Como eu acordaria? Meus olhos ainda estavam perdidos naqueles à minha frente. Eles tinham as respostas. Nenhuma delas dava suporte à meus devaneios momentâneos.
     Sorriu. Quase como uma gargalhada contida. Poderia parecer macabro, mas tive que rir. Era óbvio. A morte, já deve esperar por algo assim. Já era hora de ir, não me restavam mais alternativas. Nem quis passar para a parte da negociação, quis ficar com o último sorriso. Só pra poder dizer, sem saber ainda pra quem, que arranquei uma gargalhada da morte.

Izuara Beckmann,
6 de Maio de 2013.

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